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Tuesday, May 15, 2007

O AR E OS SONHOS-BACHELARD


" O CONHECIMENTO POÉTICO DO MUNDO PRECEDE,COMO CONVÉM, O CONHECIMENTO RACIONAL DOS OBJETOS.O MUNDO É BELO ANTES DE SER VERDADEIRO . O MUNDO É ADMIRÁVEL ANTES DE SER VERIFICADO.TODA PRIMITIVIDADE É ONIRISMO PURO [...] SE O MUNDO NÃO FOSSE A PRINCÍPIO O MEU DEVANEIO, ENTÃO O MEU SER SERIA IMEDIATAMENTE ENCERRADO EM SUAS REPRESENTAÇÕES , SEMPRE CONTEMPORÂNEO E ESCRAVO DE SUAS SENSAÇÕES."

PARA OUVIR OS SERES DO ESPAÇO INFINITO,É PRECISO SILENCIAR TODOS OS RUIDOS DA TERRA;É PRECISO TAMBÉM ESQUECER TODAS AS LIÇOES MITOLÓGICAS E ESCOLARES.


COMPREENDE-SE ENTÃO QUE A CONTEMPLAÇÃO É ESSENCIAL,EM NÓS,UM PODER CRIADOR."GASTON BACHELARD

Tuesday, May 08, 2007

LEVEZA





DE TANTO O MAR ME LEVAR

E ME TRAZER DE VOLTA

ADQUIRI QUALIDADE DE ESPUMA.

MARISA MACHADO




A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER



Diferentemente do que se possa pensar, a leveza não prescinde do peso. Paradoxalmente, esta contém em si os germes necessários para a produção de seu estado contrário. Isso é muito bem observado por Calvino (1990, p. 19), quando se refere ao romance de Milan Kundera, A insustentável leveza do ser. Ele diz que há nesse romance a constatação amarga da incontingência do peso da vida. Nas palavras de Calvino, esse “romance nos mostra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos pela leveza acaba bem cedo se revelando um peso insustentável


MILAN KUNDERA

Tomando um caminho menos comprometido com o pessimismo (ou mesmo realismo) revelado por Kundera, no poema “Nuvens” (p.17), Roseana prefere, platonicamente, sugerir a seus leitores uma maneira para sustentar a leveza, como se percebe nos trechos que se segUE“[...] há que esquecer / todo o peso / terrestre / e transformar / em luz, / palavras em estrelas”. A poetisa revela aí, por meio de uma sutil seleção e combinação de palavras, os cuidados necessários para cultivar a leveza. Mas nem por isso a autora furta-se de demonstrar, implicitamente, sua consciência quanto ao jogo dialético e necessário que se estabelece entre o peso e a leveza. Isso pode ser observado na leitura dos trechos: “Caminhar em nuvens / é o mais lento / e duro aprendizado”.1

CRÉDITOS
 Turchi.Referências Bibliográficas

BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Trad. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
___________. O ar e os sonhos: ensaio sobre a imaginação do movimento. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo, brasilense, 1994.
CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira. São Paulo: EDUSP, 1995.
MURRAY, Roseana. Manual da delicadeza de A a Z. São Paulo: FTD, 2001.
TURCHI, Maria Zaira. O estatuto da arte na literatura infantil e juvenil. In: TURCHI, Maria Zaira; SILVA, Vera Maria Tietzmann (orgs.). Literatura infanto-juvenil: leituras críticas. Goiânia: UFG, 2002, p. 23-31.

O AR E OS SONHOS-BACHELARD



De acordo com Bachelard em O ar e os sonhos (2001, p. 2), “O poema é essencialmente uma aspiração a imagens novas. Corresponde à necessidade essencial de novidade que caracteriza o psiquismo humano”. A poesia requer profundo devaneio e memória. Bachelard continua a refletir sobre o assunto em A poética do devaneio (1988, p. 7): “Notemos, aliás, que um devaneio, diferentemente do sonho, não se conta. Para comunicá-lo, é preciso escrevê-lo, escrevê-lo com emoção, com gosto, revivendo-o melhor ao transcrevê-lo”. Em outras palavras, são os poetas que irão nos ajudar a reencontrar a infância viva, permanente, durável, imóvel, e é a poesia que irá nos renovar: “somos feitos para respirar livremente. [...] E é nisso que a poesia – ápice de toda alegria estética – é benéfica” (BACHELARD, 1988, p. 24-25). Só a leitura nos salvará, nos proporcionará intensos momentos de regresso ao tempo acolhedor da infância e à superação de uma existência limitada. Ainda segundo o filósofo, é esse excesso de infância que será capaz de produzir o germe do poema

A MUSA E O POETA DE RODIN

"A vida deveria ser uma teia de infinitas delicadezas.Ao invés de uma porta fechada, horizontes, ao invés de um grito, girassóis".MURRAY, 2001, p.



QUERUBIN
Roseana Murray

Hoje um anjo pousou
em meus olhos:

eu caminhava,

e de repente,

tudo ficou

tão leve e alado,

havia em todos,

nas ruas e nas casas,

um desejo de querer bem,

de repartir o pão,

de inventar jardins

e gestos delicados.

Todos amavam todos

numa ciranda infinita,

que dava a volta no mundo

fazendo um anel de luz.



Percebe-se, nesse poema, que a autora, assim como propõe Calvino, esforça-se por retirar peso, tornando leves e agradáveis alguns elementos importantes da poesia: a figura humana, a cidade e a linguagem. A figura humana fica destituída de peso, pois é remetida ao sentimento de querer bem ao outro; vira um anjo, fica leve, tocada por esse sentimento. O mesmo ocorre com a cidade: “[...] nas ruas e nas casas, / um desejo [...] / de inventar jardins [...]”. Criar jardins, plantar flores, embelezar com eles as ruas e as casas faz com que a cidade fique mais leve, mais bonita, mais pronta para ser habitada por nós. Nesse caso, Roseana seleciona cuidadosamente as palavras que melhor representam a leveza, como é o caso das palavras ciranda infinita e depois anel de luz, que vão ao encontro de alguns dos maiores anseios da humanidade: liberdade, igualdade e união entre os povos. E esse cuidado se exerce com rigor em todos os poemas do livro, pois neles, concretamente, as palavras dão a idéia de que a vida, exercida com delicadeza, fica mais leve e mais agradável de ser vivida.

fonte:http://www.proec.ufg.br/revista_ufg/infancia/D_poesia.html